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sexta-feira, 12 de março de 2021

Arlindo Nascimento Rocha - Entrevista ao Jornal Inforpress - Cabo Verde - 2019

Diáspora: Jovem pesquisador cabo-verdiano quer fazer a diferença no mundo académico


Rio de Janeiro, Brasil, 11 Dez (Inforpress) – Chegou ao Brasil aos 38 anos, com o objectivo de “ser alguém” no mundo académico, e, em oito anos, fez uma especialização, um mestrado, deve concluir o doutoramento em 2021 e já publicou dois livros.

Trata-se de Arlindo Nascimento Rocha, 46 anos, santantonense da Ribeira Alta, que a Inforpress encontrou no Rio de Janeiro e que se assume, hoje, como pesquisador na área da Ciência da Religião.

Para além dos dois livros da sua autoria, colaborou numa outra obra, uma colectânea com vários pesquisadores, já publicou nove artigos em revistas académicas e está a trabalhar no seu terceiro livro, uma colectânea de breves ensaios sobre a Antropologia, Filosofia, Sociologia, tudo ligado à religião e que advém das suas pesquisas.

Mas o conto volta atrás, porque quando chegou ao Brasil, em 2012, Arlindo Rocha já tinha feito carreira na docência no Ensino Básico em São Vicente e em Santo Antão e concluído a licenciatura em Filosofia.

À Inforpress, disse que sempre foi um “aluno razoável”, ganhou prémios no Ensino Superior, de mérito na Uni-CV, em 2009, e bolsa de estudo, em 2010, em iniciação à investigação científica.

A vinda ao Brasil, contudo, tem por trás a actual mulher, Pirscila, brasileira, mestre em Filosofia, que conheceu em 2009, numa altura em que esteve no Brasil, não em tarefas académicas, mas ao serviço do teatro cabo-verdiano, como actor do Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo, convidado para o festival Feslip.

Arlindo Rocha lembra que no inicio “não foi nada fácil” no Brasil, já que sempre estudou em universidades particulares, e porque a bolsa não vem logo no início, então havia que custear as primeiras mensalidades, “que não são baratas”.

“Logo no início do mestrado vendi casa que tinha com meu irmão, carro e moto que tinha em São Vicente, ou seja, desfiz de muita coisa porque estava atrás de um sonho e não me arrependo porque que está justificado todo o sacrifício que estou a fazer”, concretizou.

Por isso, disse agradecer a Deus que sempre colocou no seu caminho pessoas que o souberam orientar e abriram as portas, para além, claro, do seu esforço pessoal, até porque na academia, sintetizou, sobretudo em pós-graduação, mestrado e doutoramento, “você vale por aquilo que vale”.

Arlindo Rocha ocupa-se ainda de divulgar tudo o que aprende na sala de aula, através das suas publicações em livros, em artigos e postagens nas redes sociais, onde possui quatro blogues.

No primeiro fala de Blase Pascal, que é o autor que investiga, num outro aborda temas da Ciência da Religião, Filosofia da Religião e Antropologia da Religião, num terceiro sobre vários temas ligados à Educação e ainda um quarto, que criou nos últimos meses, que designa de Oficina Académica, em que dá dicas para quem quer fazer um trabalho académico.

Questionado sobre como arranja tempo para se desmultiplicar nas múltiplas tarefas, o entrevistado da Inforpress respondeu que, na qualidade de bolsista a 100 por cento (%) da CAPS, instituição brasileira que fomenta e financia bolsas para quem quiser ingressar no ensino na pós-graduação, é pago para pesquisar e que tem que dar feedback à entidade financiadora.

Porque diz sentir-se, hoje, capacitado para trabalhar “em qualquer nível do sector da educação”, Arlindo Rocha sustentou que a intenção é regressar a Cabo Verde após a conclusão do doutoramento, porque a vontade e a necessidade apontam nesse sentido.

“Mas ninguém consegue prever o futuro, mas o desejo é esse até porque a minha mulher, que sempre me ajudou e me dá uma certa protecção, gosta muito de Cabo Verde”, precisou.

E o bichinho do teatro, questionamos: “Não morreu, até porque quando cheguei ao Brasil quis muito fazer teatro, tentei mas não deu certo, por isso o bichinho está adormecido, porque estabeleci como prioridade a vida académica”.

“Mas chegando a Cabo Verde, vou ter o meu retorno ao teatro, embora daqui acompanho o trabalho pessoal de São Vicente, do João Branco e a sua equipa, que aproveito para felicitar pelos 25 anos do Mindelact”, concluiu.


AA/JMV
Inforpress/Fim

Arlindo Nascimento Rocha - Entrevista à Uni-CV - Cabo Verde - 2020

Ex-estudante da FACHA dá entrevista a Uni-CV para partilhar o seu percusro no Brasil


A Universidade de Cabo Verde sempre trabalha em prol da valorização dos seus estudantes e ex-estudantes. Neste sentido, publicamos uma entrevista realizada junto com o Arlindo Nascimento Rocha, professor, pesquisador e escritor, que vive no Brasil desde 2012, onde desenvolve as suas atividades académicas e profissionais. Como ex-estudante da Universidade de Cabo Verde, partilhou conosco o seu percurso e algumas das suas ideias.

Arlindo, podes te apresentar brevemente para os nossos leitores?

O meu nome é Arlindo Nascimento Rocha, sou professor, pesquisador e escritor. A minha primeira formação académica foi no Instituto Pedagógico do Mindelo (1997/2000) e, posteriormente, na Universidade de Cabo Verde (2006/2011). Profissionalmente, iniciei as minhas atividades em 2001 como docente do Ensino Básico Integrado (EBI) no Concelho do Paul, ilha de Santo Antão, e lá permaneci entre os anos 2001 e 2005.

Além da atividade de docência, fui gestor do Pólo Educativo no 3 do Paul (Pontinha de Janela) e Supervisor do Curso de Formação de Professores a Distância do IPM. Em 2006, fui transferido para a Cidade do Mindelo e continuei as minhas funções no Pólo Educativo no 17 de São Vicente (São Pedro) e fui um dos primeiros a participar ativamente no processo da revisão curricular como docente pré-experimentador na implementação da Abordagem Por Competências (APC) nos três primeiros anos do EBI.

Atualmente vivo no Brasil (desde 2012), onde construí família e tenho vindo a desenvolver os meus estudos/pesquisas ao nível de Pós-graduação em várias universidades do país que me acolheu.

Qual foi o teu percurso académico, em particular na Uni-CV?

O meu percurso académico na Universidade de Cabo Verde (Uni-CV) – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas - Pólo do Mindelo, teve início em 2006, no Curso de Licenciatura em Filosofia para Docência, percurso este que foi feito em paralelo com a minha atividade de docência no EBI.

Fui um aluno aplicado, e, pelos resultados obtidos, em 2008 fui distinguido com o Prémio de Mérito pela Uni-CV. Em 2010, fui selecionado para participar do Programa de Iniciação Científica que ocorreu na Universidade Federal de Goiás (UFG) – Brasil, durante dois meses, onde desenvolvi o meu projeto de pesquisa que serviu de base para a elaboração da minha monografia de final de curso, concluído em 2011.

Tens publicado vários artigos e produções académicas. Podes nos explicar melhor como foram desenvolvidas estas oportunidades e em que área foram focadas?

Cheguei ao Brasil em 2012, e dediquei-me quase que exclusivamente à academia. Fui aluno “especial” do Curso de Pós-graduação em Filosofia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) durante dois semestres; fiz uma Pós-graduação (Lato Sensu), Especialização em Administração, Supervisão e Orientação Educacional e Pedagógica na Universidade Católica de Petrópolis (UCP), concluí o Mestrado em 2016 e em fevereiro de 2021 farei minha defesa de Doutorado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

A maior parte das minhas pesquisas e publicações estão diretamente ligadas às minhas atividades como aluno e pesquisador de Pós-graduação, Mestrado e Doutorado em Ciência da Religião pela PUC-SP e bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), uma fundação vinculada ao Ministério da Educação do Brasil.

Até o presente momento, já publiquei dez artigos em vários periódicos brasileiros, entre os quais, destaco: Revista Parlamento e Sociedade: Escola do Parlamento da Câmara Municipal de São Paulo; Revista Diversidade Religiosa PPGCR-UFPB; Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento; Revista Brasileira de Filosofia da Religião; Revista Argumentos: Departamento de Ciências Sociais, Unimontes - MG; Revista Último Andar: Cadernos de Pesquisa em Ciência da Religião); Revista Vértices: Departamento de Letras Orientais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

A maior parte dos artigos foram elaborados a partir da minha dissertação de Mestrado e os outros ligados a temas relacionados com Filosofia e Ciência da Religião, Sociologia, Antropologia, Ética, Ensino Religioso, etc.

Além desses artigos já publiquei três obras: uma pela Editora Pod – Rio de Janeiro; e duas pela Editora Viseu – Maringá (para mais informações, cf. nota no final da entrevista).

Além dessas publicações, sou colaborador do Mindel Insite (Cabo Verde) e mantenho os seguintes blogs: O Caniço Pensante; Educação, Cultura e Cidadania; Ciência(s) da(s) Religião(ões) e Oficina Académica, sendo este último, um espaço virtual para apoiar pesquisadores iniciantes com dicas e sugestões de pesquisas.

As tuas atividades profissionais do momento são alinhadas com a tua experiência universitária, como estudante e pesquisador?

Totalmente! Pois, sou pesquisador/bolsista CAPES (integral), e considero que as minhas atividades estão todas embasadas na minha experiência como migrante, estudante (africano) em um país onde o acesso a Pós-graduação (com bolsa) de alunos nacionais (brasileiros) é cada vez mais difícil.

Graças a minha experiência profissional/académica em Cabo Verde e nas diversas universidades brasileiras, acredito que estou preparado para qualquer desafio em termos académicos desde o Ensino Básico a Pós-graduação que possa surgir, tanto no Brasil, assim como em Cabo Verde, particularmente na Uni-CV, universidade que abriu-me as portas para o mundo académico e para o conhecimento.

Atualmente estou trabalhando em uma nova obra (a quarta) que será publicada no segundo semestre de 2021. Mas, o meu objetivo a médio prazo é fazer com que todas possam chegar a Cabo Verde por um preço acessível, pois as solicitações têm sido várias, mas as dificuldades logísticas são gigantescas...

Dirias que a tua experiência na Uni-CV foi benéfica para iniciar a tua carreira profissional no Brasil? De que maneira?

A experiência adquirida na Uni-CV foi um divisor de águas na minha vida académica posterior, pois, com a possibilidade que tive de participar do Programa de Iniciação Científica no Brasil, pude constatar o quão os nossos professores, em meio às dificuldades inerentes a uma universidade ainda em fase de implementação, esforçavam-se para levar os conteúdos da melhor forma aos alunos.

Além da experiência académica, foi uma experiência humanística, pois pude perceber que toda e qualquer dificuldade é superável, desde que os objetivos sejam claros e bem definidos. Da superação cotidiana dos alunos, professores e funcionários, trouxe comigo a tenacidade e a pujança que quem não se deixa desanimar, mesmo quando dar um passo atrás for necessário...

Que tipo de relações manténs com Cabo Verde, e com a Uni-CV em particular?

Mantenho uma relação muito boa, pois, apesar de estar fora de Cabo Verde desde 2012 e de não ter voltado desde então, não afetou em nada, pois atualmente é possível seguir tudo e todos quase que em tempo real, o que de certa forma traz certo conforto, apesar da inevitável saudade.

Após o término do meu doutorado (2021), gostaria muito de poder voltar a dar a minha contribuição como professor/pesquisador, pois, seria a realização e a retomada de um percurso iniciado há exatamente 20 anos.

Em relação à Uni-CV, tenho acompanhado pelas mídias sociais o seu desenvolvimento e engajamento cada vez mais em atividades de ensino, pesquisa e extensão, o que me alegra muito, pois sei que o caminho é longo, mas a nossa universidade está no bom caminho.

Acompanho e tenho contato com vários ex-colegas e docentes, e sei do trabalho hercúleo que estes têm vindo a desenvolver para que a Uni-CV possa, um dia, estar entre as universidades de referência a nível internacional.

A Rede Alumni da Uni-CV tem por objetivo valorizar o percurso dos ex-estudantes da instituição. O que achas deste projeto?

Penso ser de extrema importância, pois o acompanhamento e a valorização dos ex-estudantes só pode trazer benefícios para ambas as partes. É notório que após a conclusão dos estudos na Uni-CV, muitos têm seguido percursos vários, e, em certos casos, dos que continuaram ao nível de Pós-graduação dentro ou fora da universidade e do país, alguns retornam à “casa” para dar sua contribuição.

Por outro lado, ao acompanhar o percurso dos ex-alunos (as), a Universidade tem nas suas mãos um tipo de ‘termômetro’, ou seja, um ‘instrumento’ que, certamente, serve para mensurar (avaliar) o impacto social, cultural, académico/profissional dos seus regressos; (re)avaliar as suas práticas em função dos novos desafios académicos e sociais; (re)adaptar as novas demandas do mercado empregatício; (re)definir as suas práticas de ensino e pesquisa, etc. Todos esses fatores, certamente, contribuirão para elevar a posição da Uni-CV nos rankings das universidades bem classificadas.

É um projeto que, além de valorizar os ex-estudantes, também deve ter como meta estimular outros(as) alunos(as) para que possam sentir comprometidos(as) não só a concluir o curso com sucesso, mas, que possam engajar cada vez mais em pesquisas posteriores, visando fortalecer e dar maior visibilidade não só à Uni-CV, mas à academia cabo-verdiana como um todo. Nesse sentido, todos sairão a ganhar, pois, não existe ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino...

Como vês e imaginas uma relação ideal da Uni-CV com os seus ex-estudantes, em geral e para ti em particular?

Acredito que deve ser uma relação de “mão dupla”. Ambos têm as suas responsabilidades e limites e todos devem estar conscientes dos seus papeis em prol de uma universidade aberta, democrática, acolhedora, engajada, e, sobretudo, com mais qualidade de ensino e mais investimento (formação, pesquisa e extensão).

Uma vez que a Universidade dispõe-se a acompanhar os seus egressos, estes também devem estar atentos a tudo o que acontece dentro e fora da mesma, atuando não como ‘fiscalizadores(as)’, mas, como cidadãos(ães) atentos(as) às boas práticas que precisam ser estimuladas e mantidas e as não tão boas que precisam ser revistas e melhoradas.

Acredito que, só assim, poderemos construir e manter uma boa relação, e desta forma, contribuir para garantir que a Universidade, os(as) seus(as) alunos(as) e ex-alunos(as) tenham o reconhecimento não só nacional, mas, internacionalmente, atraindo assim, novos alunos, novos quadros e novos projetos...

Algumas ideias para contribuir e valorizar a Uni-CV através do teu percurso?

Acredito que a Uni-CV está fazendo um bom percurso: afinal, acabou de completar em novembro os seus primeiros 14 anos de existência. É ainda uma “adolescente” em comparação com outras universidades centenárias. Naturalmente, as dificuldades são muitas, mas, nada que não possa ser superado com tempo, investimento, autonomia, vontade política e dedicação a causa do Ensino Superior.

Acredito que a Uni-CV deva investir na formação continuada e valorização dos seus quadros, (re)qualificação dos seus espaços (principalmente as bibliotecas e salas multimédias); estabelecer ou melhorar os convénios com universidades e pesquisadores de outros países; fomentar nos seus alunos(as) o gosto pela leitura/pesquisa; criar um fundo (monetário) e estimular os seus(as) professores(as)/pesquisadores(as) e ex-alunos(as) para que possam ter as suas pesquisas publicadas em formato impresso (nesse aspeto seria interessante investir em uma gráfica interna, exemplo de muitas universidades brasileiras); estimular e possibilitar a participação da comunidade académica em intercâmbios, congressos, eventos/grupos multidisciplinares de pesquisa nacionais e internacionais...

Acredito que muitas dessas sugestões já estão em curso, mas, nunca é demais rever e manter as boas práticas, pois, o intuito é melhorar sempre...

Para aceder às publicações do Arlindo, entre nos links a seguir:

- Entretextos: coletânea de textos acadêmicos (2017), que resultou da sistematização de vários temas pesquisados na PUC-Rio, ligados à Filosofia Política, Religião, Ciência, Cultura e Linguagem, etc.

- Paradoxos da condição Humana: grandeza e miséria como paradoxo fundamental em Blaise Pascal (2019), uma adaptação da dissertação de Mestrado do Arlindo apresentada em 2016, sob a orientação do professor Doutor Luiz Felipe Pondé. Nela, o autor analisa conceção paradoxal da natureza humana, presente na filosofia pascaliana, em sua dimensão existencial como ser contraditório, enfatizando a relação dialética entre grandeza e miséria como paradoxo fundamental em Blaise Pascal.

- Religar-se: coletânea de breves ensaios (2020), uma obra que visa o estudo e a compreensão do ‘fenómeno’ religioso como parte do ‘fenómeno’ humano a partir do contexto sociológico, antropológico, filosófico, teológico e histórico que também resultou das minhas pesquisas ao longo do mestrado e doutorado.

As obras também estão disponíveis em formato impresso e digital nas lojas das editoras e em várias plataformas digitais.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Pandemia da Covid-19: o debate sobre a obrigatoriedade ou não da vacina

 


"Nossos dias mais sombrios na batalha contra a Covid ainda estão por chegar, não os deixamos para trás. Por mais frustrante que seja ouvir isso, vamos precisar de paciência, persistência e determinação para derrotar este vírus" [JOE BIDEN].
Por: Arlindo Nascimento Rocha* 

O debate sobre a importância ou não das vacinas é uma questão antiga e sempre colocou grupos anti-e-pró-vacinação em lados opostos. No Brasil (Rio de janeiro) esse debate começou em 1904, quando o Estado lançou uma campanha de vacinação obrigatória para combater a varíola. Acredita-se que a polêmica tenha se instalado devido a dois pontos: a obrigatoriedade e a eficácia ou não das vacinas. Mas, é preciso referir, logo de partida que, mesmo entre médicos e especialistas, nunca houve consenso generalizado sobre a obrigatoriedade e a eficácia das mesmas. 

De qualquer forma, ao analisarmos os benefícios logrados à saúde pública nas últimas décadas, principalmente nos países em desenvolvimento, não há como negar que houve progressos visíveis através da erradicação e o controle de muitas doenças, através da imunização precoce de crianças e adolescentes. Ou seja, a massificação e a democratização das vacinas, certamente ajudaram a ‘salvar’ e a trazer qualidade de vida a todos nós. Mas, apesar disso, vozes inconformadas e barulhentas de uma minoria denominada ‘antivacinas’ tentam por diversas vias transmitir de forma equivocada informações distorcidas sobre a eficácia e a importância das mesmas, atitude que tem impactado negativamente as campanhas de vacinação pelo mundo afora. 

Esse movimento, segundo estudos recentes, tem contribuído para o (re)surgimento de algumas doenças julgadas como extintas ou controladas, pois, na ausência da imunização, crianças, adolescentes e jovens ficaram mais vulneráveis e susceptíveis a contraírem determinadas doenças. Contra os benefícios amplamente conhecidos, o movimento tem conquistado a simpatia de políticos, agentes públicos, influenciadores, etc. Por essa razão, teorias de conspiração e fake news têm cada vez mais feito eco no coração e na mente de muita gente. A isso, pode-se acrescentar ainda, outros factos que impactam negativamente as campanhas de vacinação como o extremismo/fundamentalismo religioso, a instabilidade política, o populismo e o 'negacionismo' crescente. 

Para quem nega a realidade e a importância das vacinas é salutar fazer um trabalho pedagógico, retornando aos primórdios para saber como estas surgiram. É imprescindível frisar que, o termo como conhecemos hoje, surgiu em 1789, graças ao cientista inglês, Edward Jenner (1749-1823). Seus estudos foram baseados em relatos que davam conta que trabalhadores rurais não pegavam varíola, pois já haviam tido a varíola bovina, de menor impacto. Baseado nesses relatos, introduziu os dois vírus em James Philipps (criança de oito anos) e percebeu que o rumor tinha de fato uma base científica. 

A partir do resultado obtido previu que, aplicando a experiência à população a doença, certamente, seria erradicada, o que veio a acontecer séculos depois, com a vacinação massiva das pessoas no mundo inteiro. O termo “vacina” deriva de ‘Variolae vaccinae’, nome científico dado à varíola bovina. A partir da experiência de Jenner, surgiram outras experiências cientificamente ainda mais eficazes. O francês Louis Pasteur (1822-1895) foi o responsável pelo desenvolvimento da segunda geração de vacinas, tendo criado a primeira vacina contra raiva (vacina antirrábica) e sugerido o termo para batizar a recém-criada substância, em homenagem a Jenner. Graças a eles, e com os avanços científicos, atualmente, podemos celebrar a existência de mais de 20 vacinas disponíveis para a imunização de várias doenças. 

Mas, com a Covid-19 e a polarização política crescente, bastante nociva ao combate do vírus, ressurge (de novo) a polêmica sobre a obrigatoriedade e a eficácia ou não das vacinas, numa época em que a pandemia já ceifou milhares de vidas, deixou famílias destroçadas, pessoas desempregadas e psicologicamente abaladas pela sucessão de eventos e restrições impostas a todos visando o bem comum. As medidas não farmacológicas como a higiene pessoal, o uso obrigatório de máscaras, o distanciamento social foram vistas, inicialmente, como as únicas formas de conter o avanço descontrolado da pandemia. 

Estes, em certos casos não se revelaram muito eficazes, pois, as pessoas continuam convivendo com outras pessoas, usando transportes lotados, viajando, frequentando bares, restaurantes, praias, festas, ou melhor, aglomerando. Esse vírus, como todos sabem, adora aglomerações! As pessoas a despeito de não poderem desfrutar da solidão dos seus apartamentos ou casas são facilmente atraídas pelo barulho, pela diversão e pelo tumultuo, tornando-se hospedeiros e presas fáceis para esse vírus que não olha e não escolhe a quem infectar. Infelizmente, muita gente aprendeu, não por amor, mas pela dor, o quão esse vírus é nocivo à saúde, principalmente dos mais vulneráveis. Quantas mais vidas serão sacrificadas? Quantas pessoas amigas, familiares, parceiros deixarão nossa convivência? Até quando??? 

No mundo inteiro, deu-se inicio a uma maratona investigativa cujo objetivo inicial era encontrar uma vacina, capaz de conter a pandemia, pois, ainda não existe nenhum remédio que provou ser eficaz no seu combate. Por isso, a brevidade com que os testes estão sendo realizados em diversos países, os resultados ainda provisórios e possíveis efeitos colaterais (pouco significativos) têm, apesar de tudo, merecido a desconfiança dos ‘negacionistas’ que vêm um mal real com a aplicação da vacina. 

Desconfiar, questionar ou problematizar são atos legítimos e até salutares. Porém, quando determinadas questões técnicas e científicas são julgadas na praça pública, muitas vezes por pessoas leigas, sem formação/informação, é preciso que haja, de facto, outros canais informativos capazes de esclarecer todas as dúvidas (ou parte delas), pois, com a massificação das mídias sociais, as fake news ganharam terreno, e, passaram a ser vistas como verdades irrefutáveis e absolutas. 

Diante de tanto sofrimento, precisamos confiar um pouco mais na ciência e nos cientistas, pois, o destino da humanidade, infelizmente ou felizmente encontra-se nas mãos deles. Certamente, não salvarão a humanidade, mas, evitarão que centenas de milhares de pessoas percam a vida, o bem mais precioso que foi emprestado a cada um de nós e que precisamos preservar. Muitos ficarão pelo caminho, pois, a ciência e os cientistas não são infalíveis. Por isso, precisamos fazer nossa parte facilitando o trabalho dos que estão na linha de frente, e incansavelmente pesquisam e estudam noite e dia. 

Atualmente a desconfiança na ciência e nos cientistas, possivelmente, alcançou níveis mais altos. Diante dessa situação somos todos chamados a dura realidade que é a preservação da vida. E mais, somos chamadas a proteger os mais frágeis, os mais vulneráveis, não pela obrigatoriedade de tomar uma vacina, mas, pela responsabilidade de saber que não vivemos numa ilha, isolados dos demais. Vivemos todos numa aldeia global, por isso, devemos pensar globalmente. Mas, não basta apenas pensar, é preciso agir, ou seja, a participação coletiva está condicionada a própria sobrevivência da humanidade. Pois, jamais fomos tão ameaçados. 

Em vários países já foi dada a largada para a vacinação da população em larga escala. Esse processo segue uma metodologia que determina ser vantajosa começar pelos mais vulneráveis, isto é, os idosos, os portadores de comorbidades, os profissionais de saúde, etc. Posteriormente, a campanha será ampliada a todos. No entanto, vários laboratórios recomendam que determinados grupos de pessoas não sejam vacinadas nessa primeira fase, pois, estas, não fizeram parte dos testes realizados, nomeadamente: pessoas alérgicas, crianças, adolescentes e gestantes. 

Os resultados obtidos são animadores, pois, os efeitos registrados até agora têm sido insignificantes, em comparação com o benefício que a vacina proporcionará às pessoas a curto prazo, visto que, na ausência de um medicamento, a vacina contra a Covid-19 é a principal arma. É preciso frisar que, apenas estamos no começo, e que, a possibilidade de vacinar 50% da população mundial levará, certamente, muitos meses, pois, tanto os laboratórios, assim como cada país, estado ou município precisa criar as condições logísticas e garantir que as normas e os procedimentos sejam criteriosamente seguidas, que os problemas de armazenamento e distribuição sejam resolvidos e que as pessoas possam voltar ao ‘novo normal’. 

Mas, nesse ‘novo normal’ precisaremos manter e reforçar todas as práticas que ajudaram a desacelerar o avanço da Covid-19, pois, as vacinas não garantem 100% de eficácia. Desta forma, não serão o ‘salvo-conduto’ que autorizará as pessoas deixarem de proteger a si e aos outros. Portanto, exige-se a todos uma mudança efetiva de comportamento, pois, o mundo pós-pandemia, jamais será o mesmo. É um imperativo que continuemos usando máscaras, o distanciamento social e a higienização constante, ou melhor, devemos continuar agindo como se a máxima da nossa ação devesse tornar-se, através da nossa vontade, uma lei universal, como defendeu Kant através do seu imperativo categórico. 

Desta forma, seremos nós próprios legisladores das nossas condutas, pois, se vivemos em comunidade, devemos agir em prol do bem comum e não individualmente. Logo, a liberdade do pensamento e ação individual, deve ter como pressuposto a busca de melhores soluções e alternativas de um futuro coletivo cada vez mais adequado a convivência harmoniosa entre todos. 

A Covid-19 nos chama a pensar e a agir em prol de uma sociedade mais sadia, mais justa, mais humana, onde o amor aos outros deve ser igual a nós mesmos, ou seja, a empatia é o fator chave para que nossa humanidade triunfe sobre a desumanidade reinante em diversos nichos da sociedade permeada pela liquidez das relações humanas onde tudo se deteriora em função de um individualismo que coloca cheque a coletividade. 

Para concluir, é preciso frisar que não se trata de fazer apologia à obrigatoriedade de tomar ou não a vacina, mas, fazer com que todos possam assumir suas responsabilidades tanto individuais assim como coletivas. A questão da obrigatoriedade, em minha opinião é secundária. Nesse sentido, desnecessário é, legislar sobre esse assunto, já que, naturalmente as pessoas, certamente, sentirão a necessidade de serem imunizadas, pois, os mecanismos de controle social exigirão que, em todos os casos as pessoas apresentem seus atestados de vacinação visando não colocar os outros em perigo eminente de contrair o vírus. Mais consciência coletiva e empatia, por favor! 

Rio de Janeiro, Brasil, aos 26/12/2020 
*Doutorando na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), bolsistas CAPPES – Brasil.

Publicado originalmente em: MINDEL INSITE

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

A pandemia da Covid-19: necessidade de um novo Pacto Social

  

“O pacto social estabelece entre os cidadãos, uma tal igualdade que todos eles se comprometem sob as mesmas condições e devem gozar dos mesmos direitos” (ROUSSEAU).


Por: Arlindo Nascimento Rocha*


A velocidade com que tudo acontece atualmente no mundo inteiro e a forma com que estamos aprendendo a lidar com fatores internos e externos, nos colocou frente a frente com o desafio e a possibilidade de maior contacto com pessoas portadoras de valores, crenças e visão de mundo, absolutamente diferentes. Nenhum país é mais uma ‘ilha’ isolada nesse imenso planeta, nenhum cidadão jamais deveria ser refém de um sistema político, económico ou religioso. 

Diante dessa situação, novos problemas e novas soluções são deveras necessários para que, efetivamente, possamos continuar a conviver de forma pacífica nessa aldeia global, no qual fomos convidados a permanecer por algum tempo com a obrigação de conservá-la para as gerações vindouras, pois, tudo o que está a nossa disposição, não o herdamos dos nossos antepassados, mas, o pegamos emprestados dos nossos filhos e netos, por isso, nada mais justo que a protejamos. 

No mundo inteiro, fatores naturais, sociais, culturais, éticos e religiosos sempre despertaram no homem o sentimento de conflito, tanto interno, assim como externo, ou seja, a convivência com os outros nem sempre ocorreu de forma pacífica. Alguns desses fatores foram exacerbados ainda mais em períodos de guerras, desastres naturais e pandemias. 

Há cerca de 10 meses o mundo está sendo desafiado pela maior pandemia do séc. XXI que já ceifou milhares de vidas, destroçou várias famílias, destruiu muitos sonhos, inviabilizou negócios, investimentos, carreiras, eventos, faliu grandes e pequenas empresas, fez surgir novas oportunidades e desafios, enfim, mudou o mundo e as relações humanas. Mas, parece que continuamos vivendo numa ‘insociável sociabilidade’, como diria o Filósofo Immanuel Kant. 

A pandemia da Covid-19 que iniciou num mercado popular de Wuhan - China, rapidamente chegou a todas as partes do planeta terra. De um mercado ‘pobre’, viajou na primeira classe das grandes companhias aéras para países desenvolvidos e subdesenvolvidos. O vírus nos colocou frente a frente com as nossas contingências, fragilidades, inseguranças e medo, pois, afetou e continua afetando ricos, pobres, brancos, pretos, jovens, adultos, mas, sobretudo, pessoas com comorbidades e idosos, cuja taxa de mortalidade é a mais elevada. 

Por outro lado, obrigou-nos a refletir sobre nossas posturas em relação a tudo: a nós mesmos, a família, aos amigos, as entidades patronais, enfim, a sociedade como um todo. Sendo assim, cada um de nós tornou-se (co) responsável, não só por nós mesmos, mas, pelos outros. Cedo, percebemos que seria necessário medidas extremas para contornar a pandemia sem que houvesse muitas perdas humanas. 

Entre incertezas e decisões, nem sempre fáceis e assertivas, fomos obrigados a aprender com os erros e acertos dos que tinham em mãos o poder de decidir sobre o futuro da humanidade. Desde o uso flexível ao uso obrigatório das máscaras, do isolamento social vertical ao horizontal, e, finalmente, ao lockdown, da higiene comum, aprendemos, de facto, a higienizar com mais frequência as nossas mãos, nossas casas, carros, ambiente de trabalho, pois, fomos persuadidos que a solução, dependia, em grande parte, da nossa postura responsável como seres humanos. 

A despeito de alguma insensatez, muitos aprenderam de forma trágica que o vírus é o mais ‘democrático’ que os outros, pois, não olha a quem; outros, nem por isso, mas, precisamos perseverar, pois, o que nos distingue dos outros seres da natureza é a nossa capacidade da autorreflexão, autosuperação e autotransformação. Mas, para isso, precisamos urgentemente de um novo ‘Pacto Social’, pois, cada vez mais, somos obrigados a conviver com pessoas dos diversos nichos sociais, políticos e religiosos. 

Historicamente, o termo ‘Pacto Social’, que consagrou os princípios do Direito Político dos cidadãos é amplamente conhecido, pois, foi abordado na obra O Contrato Social do filósofo Jean-Jacques Rousseau, publicado pela primeira vez em 1762. É uma obra fundamental para a história da filosofia que marcou o ideário da Revolução Francesa, cujo lema foi Liberté, Egalité, Fraternité (Liberdade, Igualdade, Fraternidade) entre os povos, o que conduziu a elaboração da noção do Estado Moderno e à universalização dos direitos sociais e a origem das liberdades e garantias individuais a partir da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789). 

Na obra Rousseau não qualifica o ‘Contrato’ como uma convenção (Lei) por meio da qual as pessoas seriam obrigadas a fazer, ou deixar de fazer determinada coisa, mas sim como um ‘pacto’ no sentido filosófico, incluindo compromissos recíprocos que resultam em convenções implícitas na vida em sociedade, ou seja, o respeito, a tolerância, a empatia e a solidariedade. Na visão rousseriana, os homens seriam bons e viveriam em paz. 

Desta forma, todos seriam irrepreensíveis em suas condutas, honestos, incorruptíveis, moralmente retos, sendo a sociedade que os tornam maus criando a diferença entre eles. Na prática, os homens deveriam ser capazes de seguir ipsis litteris o imperativo kantiano: “age como se a máxima de tua ação devesse tornar-se, por tua vontade, lei universal”, em outras palavras, seria o mesmo que dizer: “ama a teu próximo como a ti mesmo”. Mas, infelizmente, a sociedade corrompeu seus membros. 

Diante disso, somos obrigados a questionar e a refletir, qual é a nossa posição na atual sociedade, cada vez mais corrupta, intolerante, racista, machista e xenófoba [...]. Por isso, sugerimos as seguintes questões: Atualmente, qual o elo que liga os componentes de uma sociedade? Qual ato funda a vida social de forma justa? Numa sociedade o que legitima os direitos iguais para todos? Ainda que não tenhamos respostas efetivas sobre questões tão complexas, começar a refletir sobre, já é um bom começo, pois, atualmente o que caracteriza nossas relações é a ausência de reflexão. 

Opinamos sobre tudo e todos, mas, não aprofundamos as questões, pois, nos contentamos com discursos superficiais, aforismos breves, notícias falsas (Fake News) e militamos muitas vezes, sem saber, em complôs que visam segmentar a sociedade com teorias de conspiração absurdas. Tornamo-nos Teletubbies das mídias sociais. Charles Peirce (pai da semiótica) não entenderia o porquê de ainda não sermos capazes de produzir nossos próprios pensamentos e imagens. 

Ao estabelecermos o novo pacto social, acredito eu, que ‘estaremos todos embarcados’, ou seja, comprometidos com o futuro da nossa civilização, pois, a Covid-19 nos está a mostrar que, se as pessoas não pensarem e agirem coletivamente, a sociedade corre sérios riscos. Certamente, não desaparecerá, mas, perderemos muitas pessoas queridas, amigos, familiares e até nós mesmos, pois, não somos e nem estamos imunes a nada. Por isso, em vez de optarmos pelo darwinismo social (sobrevivência dos mais aptos), somos todos chamados a proteger os ‘menos aptos’, ou seja, os mais frágeis e susceptíveis ao vírus e suas consequências. 

Por enquanto, o distanciamento social, o uso de máscaras, a higienização das mãos, são nossas únicas armas. A elas acrescenta-se a possibilidade de uma vacina que seja eficaz, não importando se será da China, dos Estados Unidos ou da Rússia, o que mais deveria importar é a garantia que o vírus possa ser aniquilado através da ciência e do conhecimento. 

Vozes contrárias (antivacinas) crescem a cada dia, a obrigatoriedade, ou não, entrou nas pautas políticas, mas, isso é o que menos deveria importar, pois, somos todos chamados a celebrar, de novo, o pacto social para a preservação da humanidade, ou seja, somos chamados a garantir e a proteger não só a nós mesmos, mas, a todos, sem exceção. Que possamos olhar para os outros com sentimento de gratidão, amizade, reconhecimento e amor a vida. Mais empatia, POR FAVOR! 

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Rio de Janeiro, Brasil, aos 18/12/2020 

*Doutorando na Pontifícia Universidade católica de São Paulo (PUC-SP), bolsistas CAPPES – Brasil. 

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Críticas à religião - Marilena Chauí

 


As primeiras críticas à religião feitas no pensamento ocidental vieram dos filósofos pré-socráticos, que criticaram o politeísmo e o antropomorfismo. Em outras palavras, afirmaram que, do ponto de vista da razão, a pluralidade dos deuses é absurda, pois a essência da divindade é a plenitude infinita, não podendo haver senão uma potência divina.

Declararam também absurdo o antropomorfismo, uma vez que este reduz os deuses à condição de seres super-humanos, isto é, as qualidades da essência divina não podem confundir-se com as da natureza humana. Essas críticas foram retomadas e sistematizadas por Platão, Aristóteles e pelos estOicos.

Uma outra crítica à religião foi feita pelo grego Epicuro e retomada pelo latino Lucrécio. A religião, dizem eles, é fabulação ilusória, nascida do medo da morte e da Natureza. É superstição. No século XVII, o filósofo Espinosa retoma essa crítica, mas em lugar de começar pela religião, começa pela superstição. Os homens, diz ele, têm medo dos males e esperança de bens. Movidos pelas paixões (medo e esperança), não confiam em si mesmos nem nos conhecimentos racionais para evitar males e conseguir bens.

Passional ou irracionalmente, depositam males e bens em forças caprichosas, como a sorte e a fortuna, e as transformam em poderes que os governam arbitrariamente, instaurando a superstição. Para alimentá-la, criam a religião e esta, para conservar seu domínio sobre eles, institui o poder teológico-político. 

Nascida do medo supersticioso, a religião está a serviço da tirania, tanto mais forte quanto mais os homens forem deixados na ignorância da verdadeira natureza de Deus e das causas de todas as coisas. 

Essa diferença entre religião e verdadeiro conhecimento de Deus levou, no século XVIII, à idia de religião natural ou deísmo. Voltando-se contra a religião institucionalizada como poder eclesiástico e poder teológico-político, os filósofos da Ilustração afirmaram a existência de um Deus que é força e energia inteligente, imanente à Natureza, conhecido pela razão e contrário à superstição. 

Observamos, portanto, que as críticas à religião voltam-se contra dois de seus aspectos: o encantamento do mundo, considerado superstição; e o poder teológico-político institucional, considerado tirânico. 

No século XIX, o filósofo Feuerbach criticou a religião como alienação. Os seres humanos vivem, desde sempre, numa relação com a Natureza e, desde muito cedo, sentem necessidade de explicá-la, e o fazem analisando a origem das coisas, a regularidade dos acontecimentos naturais, a origem da vida, a causa da dor e da morte, a conservação do tempo passado na memória e a esperança de um tempo futuro. Para isso, criam os deuses. Dão-lhes forças e poderes que exprimem desejos humanos. Fazem-nos criadores da realidade. Pouco a pouco, passam a concebê-los como governantes da realidade, dotados de forças e poderes maiores do que os humanos. 

Nesse movimento, gradualmente, de geração a geração, os seres humanos se esquecem de que foram os criadores da divindade, invertem as posições e julgam-se criaturas dos deuses. Estes, cada vez mais, tornam-se seres onipotentes, oniscientes e distantes dos humanos, exigindo destes, culto, rito e obediência. Tornam-se transcendentes e passam a dominar a imaginação e a vida dos seres humanos. 

A alienação religiosa é esse longo processo pelo qual os homens não se reconhecem no produto de sua própria criação, transformando-o num outro (alienus), estranho, distante, poderoso e dominador. O domínio da criatura (deuses) sobre seus criadores (homens) é a alienação. 

A análise de Feuerbach foi retomada por Marx, de quem conhecemos a célebre expressão: “A religião é o ópio do povo”. Com essa afirmação, Marx pretende mostrar que a religião – referindo-se ao judaísmo, ao cristianismo e ao islamismo, isto é, às religiões da salvação – amortece a combatividade dos oprimidos e explorados, porque lhes promete uma vida futura feliz. Na esperança de felicidade e justiça no outro mundo, os despossuídos, explorados e humilhados deixam de combater as causas de suas misérias neste mundo. 

Todavia, Marx fez uma outra afirmação que, em geral, não é lembrada. Disse ele que “a religião é lógica e enciclopédia popular, espírito de um mundo sem espírito”. Que significam essas palavras? 

Com elas, Marx procurou mostrar que a religião é uma forma de conhecimento e de explicação da realidade, usadas pelas classes populares – lógica e enciclopédia – para dar sentido às coisas, às relações sociais e políticas, encontrando significações – o espírito no mundo sem espírito -, que lhes permitem, periodicamente, lutar contra os poderes tirânicos. 

Marx tinha na lembrança as revoltas camponesas e populares durante a Reforma Protestante, bem como na Revolução Inglesa de 1644, na Revolução Francesa de 1789, e nos movimentos milenaristas que exprimiram, na Idade Média, e no início dos movimentos socialistas, a luta popular contra a injustiça social e política. 

Se por um lado na religião há a face opiácea do conformismo, há, por outro lado, a face combativa dos que usam o saber religioso contra as instituições legitimadas pelo poder teológico-político. 

Fonte:

CHAUI, Marilena. Convite a filosofia. 12ª ed. – São Paulo: Editora Ática, 2002.

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

O que fazer antes da submissão de um artigo acadêmico?


Antes da submissão de um artigo acadêmico para uma Revista especializada é preciso levar em conta uma série de normas e procedimentos que devem ser seguidas ao pé da letra.

Portanto antes de submeter o artigo, leia as diretrizes para autores e para submissão de trabalhos da Revista, verifique absolutamente tudo antes de qualquer submissão, pois acredita-se que grande parte das reprovações deriva-se da não observância das diretrizes. 

Confira os seguintes itens antes da submissão:

Ortografia correta de título e nomes dos autores e filiação;

Uso correto da gramática. Erros comuns: uso de crase, excesso/falta de vírgulas, concordância, paralelismo;

Numeração das seções e subseções;

Numeração no texto concorda com a numeração usada em figuras e tabelas;

Imprima o artigo (no formato final de submissão) pelo menos uma vez para se certificar que texto, tabelas e figuras estão legíveis.

Verificar se referências cruzadas não foram perdidas dentro do editor. Uma boa ideia é fechar o editor de texto, abri-lo novamente, abrir o arquivo do artigo, e então verificar as referências cruzadas.

E finalmente, tenha certeza absoluta da data e do horário limites para submissão de trabalhos. Várias conferências estabelecem hora com o devido fuso horário. Cuidado para não se perder com horário de verão (outros países como os Estados Unidos também possuem horário de verão).

 FONTE: CLIQUE AQUI

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Não, ela não é louca

 Um homem rico entrou num bar em Miami. Assim que ele entrou, ele notou uma mulher africana (negra), sentada em um canto.

Ele foi até ao balcão, tirou a carteira e gritou: "Barman! Estou a comprar bebidas para todos neste bar, exceto para aquela mulher negra ali!"

O empregado do bar recolheu o dinheiro e começou a servir bebidas grátis a todos no bar, exceto para a mulher africana. Em vez de ficar chateada, a mulher negra simplesmente olhou para o tipo e gritou: "Obrigada!"Isto enfureceu o homem rico. 

Então, mais uma vez, ele tirou a carteira e gritou: "Empregado! Desta vez eu estou comprando garrafas de vinho e comida adicional para todos neste bar, exceto para aquela africana sentada ali no canto!" O garçom recolheu o dinheiro do homem e começou a servir comida grátis e vinho para todos no bar exceto para a africana. 

Quando o empregado acabou de servir a comida e as bebidas, a mulher africana simplesmente sorriu para o homem e disse: "Obrigada!" O que o deixou furioso. 

Então, ele inclinou-se sobre o balcão e perguntou ao barman: "O que há de errado com aquela mulher negra? Comprei comida e bebidas para todos neste bar, exceto para ela, e em vez de ficar zangada, ela senta-se ali, sorri para mim e grita: "Obrigada!" "Ela está louca?" 

O barman sorriu para o homem rico e disse: "Não, ela não é louca. Ela é a dona deste estabelecimento."  

Que os nossos inimigos trabalhem, sem saber. a nosso favor.

Fonte: CLIQUE AQUI 

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Bloqueio na escrita...


A escrita de qualquer trabalho acadêmico (Monografia, Dissertação ou Tese) é um processo muitas vezes solitário e desgastante. Muitas vezes levamos horas a frente de um computador e não conseguimos produzir absolutamente nada. Isso pode prolongar por dias, semanas, [...] pois, nossa mente 'para de funcionar'. Essa falta de produtividade, pode muitas vezes, estar associado ao que é chamado de "bloqueio"...

Há muitos fatores que determinam o bloqueio na escrita. Os fatores internos dizem respeito às condições psicológicas em geral do(a) aluno (a); os externos compreendem notadamente as situações verificadas no processo de aprendizagem e no respetivo domínio do que se está pesquisando.

Para fazer uma boa escrita, o(a) aluno(a) deve estar em boas condições psicológicas, pedagógicas e materiais favoráveis. Caso contrário, o insucesso pode bater à porta...


Se esse é o seu caso, procure ajuda!

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

O ESTOICISMO E O CETICISMO: AS DUAS VIAS FILOSÓFICAS PARA A CONSTRUÇÃO DO PARADOXO ENTRE GRANDEZA E MISÉRIA EM BLAISE PASCAL

Resumo 

Blaise Pascal é o filósofo do paradoxo, pois, para ele, a verdade é a reunião dos contrários. Em sua antropologia, o homem é analisado como um ser paradoxal, ao mesmo tempo grande e pequeno, fraco e forte, grande e mísero. Essas contradições estão presentes em todos os homens, mas, a maior parte dos filósofos ao longo da história do pensamento Ocidental enxergou apenas um dos lados, ou seja, baseou-se numa visão unilateral e limitada do homem. Este artigo tem como objetivo analisar as duas vias filosóficas, pelas quais Pascal constrói o paradoxo entre grandeza e miséria, como aspecto fundamental para o estudo e compreensão do homem. Para isso, ele se apoia especialmente em dois filósofos, Epiteto e Montaigne, mostrando que, a ‘verdade’ de cada corrente filosófica opera como desqualificadora da ‘verdade’ da outra. Mas, para Pascal a verdadeira compreensão do homem, está na reunião dessas duas dimensões contraditórias, ou seja, paradoxais. 

Palavras-chave: ser paradoxal; estoicismo e ceticismo; grandeza e miséria; paradoxo, compreensão do homem.

Para acessar o o artigo na íntegra, CLIQUE AQUI

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Sobre o racismo e como quebrar paradigmas com educação e amor



Após a abolição da escravatura, a liberdade não significou igualdade. Sou branca e nunca tinha sofrido racismo, sempre procurei estudar para entender e ir além, lutar e fazer a diferença. Me apaixonei e casei por um preto e africano. O “e” é importante, pois soma, para o positivo e; também negativo, quando falamos ou escancaramos os preconceitos. 

Desse amor nasceu a linda Cecília Milagros, e antes mesmo dela nascer eu já tinha sentido e sofrido o racismo...Olhares, encaradas. Passei a reconhecer os seguranças das lojas, bancos, farmácias que para mim antes eram invisíveis, mas com meu marido ao lado, eles brotavam do chão. Cecília Milagros nasceu, e não só o amor materno aflorou, mas todos os medos que um dia nunca pensei que sentiria. Ela não era branca e o mundo não estava preparado para Ela. Não tive pânico, e sim muito amor como guia, e num átimo pensei: “Se o mundo não está preparado para Cecília Milagros, ela sim estará preparada para o mundo, e sua base será o amor” (Ao pensar isso JAMAIS IMAGINEI quantos pretos fossem morrer ao longo desses 5 anos, e de formas tão truculentas, hipócritas, cruéis, bárbaras). 

Não existem bons ou maus racismos- todo tipo de racismo é ruim – é preciso pensar nas especificidades da história que faz da desigualdade uma etiqueta internalizada e da discriminação um espaço não formalizado. 

Podemos achar que não somos racistas, mas um fenômeno do cérebro chamado “viés inconsciente” ou “viés cognitivo” (termo mais utilizado por neurocientistas) ou, preconceito implícito, é o que faz as pessoas disseminarem o racismo sem perceber. 

O viés inconsciente é um conjunto de estereótipos sociais, sutis e acidentais que todas as pessoas mantêm sobre diferentes grupos de pessoas. 

É o olhar automático para responder a situações e contextos para os quais você é treinado culturalmente, como uma programação do cérebro. Então se você tem um cérebro, tem viés inconsciente! E o racismo que imaginamos não é simplesmente o que vemos. 

Ele se reproduz também no invisível, no cotidiano, no que se faz e não se percebe, no viés inconsciente. Depois da abolição, o estado sofisticou mecanismos de exclusão, o que vivenciamos até hoje, e o pior aceitamos! E é por isso, que hoje resolvi escrever pois, o racismo se reproduz nessa estrutura de privilégios porque é dentro dela que o preconceito de cor exerce seu poder, criando obstáculos, por vezes ultrapassáveis, infelizmente. 

Mamie Phipps Clark em 1939 entregou sua dissertação de mestrado, intitulada “O desenvolvimento da consciência em crianças negras de idade pré-escolar” (alguns anos depois, ela se tornaria a primeira mulher negra a obter um doutorado em psicologia na Universidade Columbia). Depois, expandiu esse trabalho com experimentos mais sofisticados ao longo da década de 1940, que até os dias de hoje é reproduzido, e hoje realizamos com nossa filha Cecília Milagros.Clique aqui

O racismo do experimento mostra como o viés inconsciente é “ensinado” e “assimilado” mesmo antes de as crianças criarem juízo crítico sobre aspectos da vida e da sociedade, ou seja, antes mesmo de adquirirem a autonomia. 

VOCÊS QUE DIZEM QUE NÃO SÃO RACISTAS já pararam para pensar o que acontece com essas meninas(os) que crescem se identificando com “a boneca mais feia”? São excluídas, oportunidades são tiradas, angústias constantes e uma vida de autoproteção e autodefesa contínua, por medo. 

Os pretos têm medo, pelo simples fato de serem pretos. Eu tenho medo, medo de um dia Cecília Milagros sofrer racismo. Eu tenho medo! E tenho além do medo angústias por tantas vezes meu marido ter sofrido racismo, e nojo por todos meus amigos pretos que sofreram racismo. 

A formação da mentalidade das pessoas se dá com o que elas vêem, ouvem , sentem. VOCÊ QUE ESTÁ ME LENDO PODE DIZER QUE NÃO É RACISTA, NEM EM PENSAMENTO? Hoje eu sou antirracista, e para ser, falar e escrever isso eu tive que sentir o racismo (e cabe dizer que eu já me dizia não racista), não em mim, mas nas pessoas que mais amo nesse mundo! Lutem, façam a diferença! 

Ensinem seus filhos todos os dias que eles podem ser seres humanos melhores! Fazer a vida valer a pena e lutar por dias melhores não só para mim, meu marido ou filha, mas para todos! Mais vidas! 

Mais Amor!O segredo de tudo é a educação com amor, respeito e comprometimento! 

E para terminar além do medo, tenho orgulho, muito orgulho de Cecília Milagros, do meu marido e orgulho de ser antirracista! Vamos à luta, mindelevelmente! 

Dessa forma deixo Mandela: “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele ou por sua origem, ou sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender. 

E se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar, pois o amor chega mais naturalmente ao coração humano do que o seu oposto. A bondade humana é uma chama que pode ser oculta, jamais extinta.” 

Priscilla Lundstedt Rocha - 07/06/2020